Etiquetas

,


eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Esta reflexão faz o poeta clássico chinês Tao Yuanming (365-427) num poema que à frente transcrevo na totalidade.
À incerteza da vida e seu futuro, — Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas — responde o poeta em alguns poemas com um convite a gozar o momento que passa, e aproveitar a despreocupação e alegria que o vinho pode proporcionar:

 

Passeio ao longo do rio Xie

pego no jarro de vinho
e sirvo os meus companheiros
de copos cheios, bebemos e brindamos à vez
sem sabermos se amanhã ainda estaremos aqui
um pouco já alegres deixamos falar o coração
esquecendo as agruras da vida
não hesites, goza hoje
Preocupações!? amanhã podes não ter nenhumas

 

A vertigem do avançar do tempo — A vida depressa caminha para o nada, — e a incógnita do além, são linhas de reflexão poética que conduzem à evidência de valorizar o momento que passa, plasmadas no poema que segue:

 

 

Chuva incessante e eu bebendo só

A vida depressa caminha para o nada,
sempre assim foi e será
e se neste nosso mundo viveram imortais
como o Pinheiro Vermelho e Wang Chiao,
onde estão eles agora?
um ancião ofereceu-me vinho, garantindo-me a imortalidade
sendo assim bebo um pouco, não tenho nada a perder
aos primeiros golos deixei de sentir
ao fim de uns quantos copos até do céu me esqueci
mantém-te mas é fiel ao momento que passa
e às suas próprias coisas
pássaros de asas mágicas, viajam através das nuvens,
em oito direcções preparam a viagem de volta
eu por mim consagro-me a viver em solidão
já faz quarenta anos que a isso me dedico
com devoção e de acordo com a sábia natureza
o meu corpo envelheceu há muito tempo
mas os meus sentimentos continuam intactos,
por isso nada tenho a lamentar.

 

Além deste e outros poemas isolados reflectindo sobre o valor de carpe diem, o poeta escreveu um pequeno cancioneiro de 19 poemas e uma introdução, bebendo vinho, com uma densa interrogação sobre os tempos e as gentes, onde o vinho tem importante papel na ignição dessas reflexões.

 

Poemas transcritos de Poemas de Tao Yuanming (365-427), edição Livros do Meio, Macau, 2013.
Versão portuguesa de Manuel Afonso Costa.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de Alberto Giacometti (1901-1966).

 

Anúncios