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Eu só quero que me fales
de cantigas e de vinho
deixa lá, tu não te rales
Deus perdoa o descaminho!

I
deixa esta gente vã,
de promessas e intrigas.
ela já não conta nada
pois o meu maior afã
é beber minha golada
nesta tarde tão louçã
ao som de belas cantigas.

 

Neste itinerário do vinho em poesia paremos agora no rei-poeta do Al-Andaluz nascido em Beja, Al-Mu’tamid (1040-1095).
Embora nalguma poesia de  Al-Mu’tamid o beber seja em sentido figurado tentar saciar a inesgotável sede de amor do poeta, nesse percurso de prazer o vinho também entra, ainda que seja, como se sabe, um interdito do Islão.

Além da nota de festa do fragmento de abertura, leiamos em dois poema: primeiro, como o vinho sublima o prazer do amor:

 

A noite lavava as sombras
das suas pálpebras com a aurora.
ligeira corria a brisa.
e bebemos! um vinho velho cor de rubi,
denso de aroma e de corpo suave.

 

E para concluir, mais uma reflexão sobre a finitude e o que vale da vida é o prazer que dela se colhe:
Solta a alegria! Que fique desatada! / esquece a ânsia que roi o coração. /… a vida é uma presa, vai-te a ela! / pois é bem curta a sua duração.

 

 

Poema

Solta a alegria! Que fique desatada!
esquece a ânsia que roi o coração.
tanta doença foi assim curada!
e a vida é uma presa, vai-te a ela!
pois é bem curta a sua duração.

e mesmo que a tua vida acaso fosse
de mil anos plenos já composta
mal se poderia dizer que fora longa.
seres triste sempre não seja a tua aposta
pois que o alaúde e fresco vinho
te aguardam na beira do caminho.

os cuidados não serão de ti os donos
se a taça for espada brilhante em tua mão.
da sabedoria só colherás a turbação
cravado no mais fundo do teu ser:
é que, dentre todos, o mais sábio
é aquele que não cuida de saber.

 

Tradução dos poemas por Adalberto Alves, transcritos de Al-Mutamid poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.

 

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