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No carrossel das convenções morais, aqui e agora já não é objecto de escândalo o contacto íntimo entre amigas que circunstâncias propícias desencadeia, qual refere este poema de Paul Verlaine (1844-1896), Internadas, até não há muitos anos incluído entre os seus poemas malditos, como a edição portuguesas de onde o transcrevo, evidencia.
A tradução, atrever-me-ia a dizer, mais bela que o original, feita por Luiza Neto Jorge, dá conta, com intensidade, da perturbação erótica que as protagonistas vivem.

O soneto foi inicialmente publicado em Bruxelas em 1867, no livro Amigas, sob o pseudónimo de Pablo Maria de Herlagñes (Ségovie), numa tiragem de 50 exemplares. Condenado à destruição de todos os exemplares pelo Tribunal de Lille, e multado o seu editor, tal não impediu sucessivas edições clandestinas até à sua circulação sem proibições.

 

 

Internadas

Quinze anos uma, a outra uns dezasseis,
Num só quarto dormiam lado a lado.
Era em Setembro, à noite, um ar pesado.
Cor de morango, olhos azuis, tão frágeis.

Despem, como quem livre se deseja,
A veste fina, d’ambar perfumada.
Ergue a mais nova os braços, arqueada,
Enquanto, mãos nos seios, a irmã a beija.

De joelhos já cai, e assim treslouca,
Cola o rosto ao ventre, e sequiosa a boca
Afunda no que é sombra e incandescência;

E a menina recenseia o que sente
Plos débeis dedos, um valsar fremente,
E rosada sorri com inocência.

 

Tradução de Luiza Neto Jorge
in Paul Verlaine, Poemas Malditos, edição em fascículos com doze desenhos de José Rodrigues, Editorial O Oiro do Dia, Porto, 1991.

 

 

Poema original

 

Pensionnaires

L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize ;
Toutes deux dormaient dans la même chambre.
C’était par un soir très lourd de septembre
Frêles, des yeux bleus, des rougeurs de fraise.

Chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,
La fine chemise au frais parfum d’ambre.
La plus jeune étend les bras, et se cambre,
Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise,

Puis tombe à genoux, puis devient farouche
Et tumultueuse et folle, et sa bouche
Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises ;

Et l’enfant, pendant ce temps-là, recense
Sur ses doigts mignons des valses promises,
Et, rose, sourit avec innocence.

 

Transcrito de Paul Verlaine, Poèmes érotiques, Librio, 2006.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura gigante (135x200cm) que hoje nos dá as boas-vindas no Petit Palais, museu de belas-artes da cidade de Paris, pintada por Gustave Courbet (1819-1877) em 1866, Le Sommeil.

 

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