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Na alegria, como na tristeza ou no desespero, o vinho é companhia e confidente dos homens desde os alvores da civilização. E a sua presença na poesia é quase um universal, olhado o arco geográfico e temporal onde ela surge.
Comecemos uma volta por esta tradição poética com alguns poemas e fragmentos de Alceu de Mitilene (c. 600 a. C.). Outros de outras épocas e latitudes se seguirão.

 

 

O vinho, meu amigo, e a verdade.
(366 L-P)

 

 

Planta a videira de preferência
a outro qualquer arbusto.
(342 L-P)

 

 

É preciso não entregar
o coração ao infortúnio.
Nada lucraremos, ó Bíquis,
com tristezas. O melhor
remédio é pedir
vinho e embriagar-nos.
(335 L-P)

 

 

Bebamos. Porque havemos
de esperar pelas lucernas? O dia
tem a extensão de um dedo. Traz
as taças grandes, meu amor, as coloridas
taças. O filho
de Sémele e de Zeus aos homens
o vinho deu para esquecimento
de seus males. Enche-as
até transbordarem — uma
parte de vinho para duas
de água. E que uma taça
empurre a outra.
(346 L-P)

 

 

Precisamos de embriagar-nos, é preciso
que todos bebam sem descanso, agora
que Mírsilo morreu.
(332 L-P)

 

 

Chove a mando de Zeus, e do céu
cai forte invernia. Estão
gelados os cursos de água.

Combate o frio atiçando
o fogo, misturando
sem descanso o vinho doce
como o mel, e reclina
em seguida a cabeça sobre
uma almofada macia.
(338 L-P)

 

 

Já sinto chegar
a primavera florida…

Misturai depressa no vaso
vinho doce como o mel.
(367 L-P)

 

 

Humedece o vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.
(347 L-P)*

 

 

Porque o vinho
é o espelho dos homens
(333 L-P)

 

Traduções de Albano Martins
in O essencial de Alceu e Safo, INCM, Lisboa, 1986.

 

A numeração que sucede os poemas respeita à numeração dos poemas originais na edição E. Lobel e D. Page, Poetarum Lesbiorum Fragmenta, Oxford, 1955.

 

* Este poema (347 L-P) foi anteriormente transcrito em artigo no blog embora partir de uma edição diferente.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Giovanni Maria Bottalla (1613-1644), chamado Il Raffaellino, Baco, Temperança e Cupido, de 1640-1642.

 

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