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Tenho assistido, incognito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao sossobro lento de tudo quanto quis ser.

Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatisfação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção consciente o sentimento do vácuo e do tédio de pensar assim!

 

São de um texto datado de 2-9-1931 de Livro do Desassossego de Fernando Pessoa (1888-1935), estas linhas de abertura.
Ao ler muita da obra deixada inédita por Fernando Pessoa, e aos poucos publicada após a morte do poeta, somos tentados a concordar com o poeta no que mais à frente neste mesmo texto escreveu:

Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. Desenrolo-me em periodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos seus sonhos.

 

Onde está o homem, ser social e biológico, e o escritor, efabulador de existências, que em um momento ou outro da vida nos tocam de forma profunda e às vezes perene? É a interrogação a que legião de estudiosos se entrega de longa data. Para o leitor comum, o encontro com muito da obra de Pessoa é inevitavelmente um momento singular. Algures no presente ou no passado sentimos assim. Ou alguém perto de nós sentiu assim. E a poesia deixa de ser ornamento da vida, e explica-nos a nós, que de outro modo, às voltas, não nos entendemos.
O fragmento que tenho vindo a citar é mais um deles. Seguem alguns outros extractos:

 

 

2-9-1931
Tenho assistido, incognito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao sossobro lento de tudo quanto quis ser. Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito debaixo das janelas como pó parecendo pedra caída de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procurado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mesmo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.

Espectador irónico de mim mesmo, nunca, porém, desanimei de assistir à vida. E, desde que sei, hoje, por anticipação de cada vaga esperança que ela há-de ser desiludida, sofro o gozo especial de gozar já a desilusão com a esperança, como um amargo com doce que torna o doce doce contra o amargo. Sou um estratégico sombrio, que, tendo perdido todas as batalhas, traça já, no papel dos seus planos, gozando-lhe o esquema, os pormenores da sua retirada fatal, na véspera de cada sua nova batalha.

Uns dizem que sem esperança a vida é impossivel, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espectáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos — bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.

Quantas vezes, contudo, em pleno meio desta insatisfação sossegada, me não sobe pouco a pouco à emoção consciente o sentimento do vácuo e do tédio de pensar assim! Quantas vezes não sinto, como quem ouve falar através de sons que cessam e recomeçam, a amargura essencial desta vida extranha à vida humana — vida em que nada se passa salvo na consciencia dela! Quantas vezes, despertando de mim, não entrevejo, do exilio que sou, quanto fora melhor ser o ninguém de todos, o feliz que tem ao menos a amargura real, o contente que tem cansaço em vez de tédio, que sofre em vez de supor que sofre, que se mata, sim, em vez de se morrer!

 

Texto nº 193 na ed. Richard Zenith de Livro do Desassossego, edição Assírio & Alvim com ortografia actualizada, e nº 322 na ed Jerónimo Pizarro, edição Tinta da China, edição esta conservando a ortografia do poeta. Mantém o mesmo número da edição crítica de Fernando Pessoa, publicada pela INCM, com edição também de Jerónimo Pizarro.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Horst Antes (1936), Figura sentada, amarelo.

 

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