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Sirvo-me do belo verso de Herberto Hélder:  Morro faz já bastante tempo e do poema que vos deixei no blog antes de férias, como pretexto para visitar a poesia de Ângelo de Lima (1872-1921), nesse poema também evocada, através do  verso com que abre um dos mais belos sonetos da língua portuguesa:

Pára-me de repente o pensamento

e que no final transcrevo.

A biografia do poeta é conhecida nos aspectos dramáticos da sua loucura(?) com o relatório do Dr. Miguel Bombarda como peça chave, e dispenso-me de o reproduzir.

Inicio esta curta viagem com o poema A MEU PAI, poema onde a verdade emocional exçuda, transmitindo de forma ímpar a desolada sensação de estar só no mundo com este verso:

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

A pungência do poema, qual  grito de socorro, toca-nos para além do conhecimento da biografia do Poeta.

A MEU PAI
(No Santo Dia Dos Finados)

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

Eva, Pedro e Vasco, referidos no poema eram irmãos do autor.

O poema, tal como os restantes que transcrevo, foi retirado da edição das POESIAS COMPLETAS organizada por Fernando Guimarães e publicada pela Editorial Inova s/d (1971?).

Para uma Obra Poética conhecida de apenas 43 poemas, o conjunto de poemas notáveis é impressionante. Escolho apenas quatro: onde a condicão humana é questionada por um lado,

Sob a luz calma e suave / Dos mundos do sentimento… ,

ou então na singularidada da sua solidão e abandono

Na Douda Correria… em que, levado… / – Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

Comecemos pelo poema 10 da edição mencionada:

Vai, sobre o sombrio abismo

D’esta existência terrena…

– Nas asas d’um misticismo

E paira a sonhar, serena!…

 

Sob a luz calma e suave

Dos mundos do sentimento…

Paira tranquila, alma… ó ave!

Sacia o longo tormento!…

 

– Sonha!… e sonhando te esquece!…

– Lá no sonho recatado –

A Rosa, o Lírio entreteces

D’um abraço embalsamado[.]

 

Lá minh’alma, alma adorada[.]

Mulher na terra caída[.]

Anjo que em meio à jornada

Sentiste a asa partida…

 

Lá minh’alma a ti cingindo,

Perfumada de amorosa,

No excelso cônjuge infindo,

Do Lírio, d’est’alma, ó Rosa!…

 

Fiquemos eternamente

Asa n’asa conjugada

– Se não tens nota ascendente,

Queda ó guitarra calada!

 

Sonhos

Sonho suave e bom que me envolveste

Não me deixes sózinho sobre a terra[.]

Se vais, contigo esta minha alma encerra,

Leva-a contigo a Deus d’onde vieste.

 

Como do céu minha alma assim mereceste

Que por ti d’ele um sonho se descerra

Ai com que frenesi que a ti se aferra,

Sonho, a ti sonho, esta alma a que desceste.

 

Sonhos que em vossas asas me tomais

Em meio do caudal em que derivo

E em vir a mim dos outros me estremais.

 

Sonho, ó ultimo sonho de que vivo[,]

Ai  não me deixes tu[,] como os demais

Retém-no em meu seio – ó meu senhor! – cativo.

Sozinho

Quando eu morrer m’envolva a Singeleza,

Vá sem Pompa a caminho do coval,

Acompanhe-me apenas a tristeza [,]

Não vá do bronze o som de val’ em val!

 

Chore o céu sobre mim de orvalho as bagas [,]

Luz do sol-posto fulja em seu cristal,

Cantem-me o “dorme em paz” ao longe as vagas.

 

Gemente a viração entoe o “Amém” [,]

Vá assim té ermas, afastadas plagas…

Lá… fique eu só!

                                               Não volte lá ninguém!

Por estas alturas, um outro louco na sua lucidez – Mário de Sá Carneiro –  escrevia:

Quando eu morrer batam em latas, / rompam aos berros e aos chicotes –  / …

Comuns na vontade de encenar a morte, são opostos os desejos, reflexo de naturezas bem diferentes.

Terminemos com o poema mais famoso de Ângelo de Lima:

Pára-me de repente o Pensamento…

– Como se de repente sofreado

Na Douda Correria… em que, levado…

– Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

 

– Pára Surpreso… Escrutador… Atento

Como pára um Cavalo Alucinado

Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…

– Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

 

Vem trazido na Douda Correria

Pára à beira do Abismo e se demora

 

E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora…

 

– Mas a Espora da dor seu flanco estria…

 

E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!

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