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Neste balanço ligeiro e grave com que vou preenchendo o blog, procuro seguir uma verdade interior acompanhando as oscilações do quotidiano, pois todos os dias comemos, todos os dias defecamos, nem todos os dias fodemos, mas todos os dias alguém ou alguma coisa nos fode o juízo.
No lidar com os dias há  uma tentativa sempre renovada de recriar uma espécie de harmonia do mundo primordial, onde a presença da mulher, real ou imaginada, é uma constante.
A vida levou-me a acreditar que o melhor que pode acontecer a um homem é a presença de uma mulher sexualmente satisfeita. Tê-la assim a nosso lado traz uma beleza ao universo para além de quaisquer considerações de cultura, fazendo de cada um de nós um príncipe sem rival. Acreditem ou não, vale a pena procurá-lá e conservá-lá.

Ocorreu-me tudo isto ontem quando, estendido na espreguiçadeira na praia, um pouco afastado, um casal a caminho dos setenta anos, muito provavelmente, repousava, lendo. A certa altura a senhora pousou a revista e num gesto de impulso estendeu a mão e acaricou a cabeça e o pescoço do homem que ao lado lia na intimidade do silencio de ambos.

Pensei de novo como a morte não é senão o fim do sonho de envelhecer juntos.

É de alguma forma do mesmo que fala Jaime Gil de Biedma (1929-1990) no poema Pandémica e Celeste que aqui deixo na versão de José Bento.

Imagina agora que eu e tu
muito tarde na noite
falamos de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!


Porque não é a impaciência do buscador de orgasmo
quem me atira do corpo para outros corpos
jovens, se possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e que alegre a minha cama ao despertar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!


Para saber de amor, para aprendê-ló,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que os seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
Mas um corpo é o livro onde se lêem.


E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões…
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.


Ou aquele entardecer perto do rio
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuíno.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites de hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis aos vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la languer goutée à cê mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como festa a meio da semana –
as experiências de promiscuidade.


Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
íntegra imagem da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.


Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anónimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de ir para a cama.


Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.


Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que uma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

A tradução foi publicada na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, em 1985, em edição de Assírio & Alvim, com organização e tradução de José Bento.

Ainda que a tradução pouco se afaste do original, transcreveria o original em castelhano não fora a sua extensão, tornando o artigo de proporções ilegíveis no blog.

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