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Com os cenários das descobertas eróticas da adolescência por perto, ocorre-me o poema de Ángel González, Itinerário de lugares propícios ao amor, na certeza de que alguns lugares sonhados são de todo inadequados. Por exemplo fazer amor na praia à beira-mar é tudo menos recomendável, mesmo dispondo de larga toalha. As voltas e reviravoltas da coisa acabam por trazer a areia para onde não deve e pode deitar tudo a perder quando o entusiasmo quer fazer esquecer tudo o resto. Pode ainda suceder um qualquer barco de pesca de beira-costa, andar por perto e ainda que estejamos numa praia deserta, surge súbito do mar para observar os inusitados movimentos entrevistos ao longe, como certa vez me aconteceu.

Há também em todos nós, julgo, ou pelo menos entre os que já experimentaram o prazer sublime de nadar nu no mar, o desejo de cópula marinha. Esqueçam. Ainda que o desejo exista e a erecção se mantenha, a lavagem constante da água do mar põe fim a qualquer lubrificação natural ou artificial tornando a expectativa de prazer em algo inalcansável, a menos que tenhais entrado no mar com considerável fornecimento de manteiga, o que nunca experimentei.

Feita esta pequena digressão deixo-vos com o poema Inventário de lugares propicios ao amor de Ángel González (1925-2008) na tradução de José Bento.

INVENTARIO DE LUGARES PROPÍCIOS AO AMOR

São poucos.

A primavera tem muito prestígio, mas

é melhor o verão.

E também essas fendas que o outono

forma ao interceder com os domingos

em algumas cidades

amarelas já por si como bananas.

O inverno elimina muitos sítios

gonzos de portas voltadas para o norte,

margens de rios,

bancos públicos.

Os contrafortes exteriores

das antigas igrejas

deixam às vezes vãos

utilizáveis, mesmo se cai neve.

Mas desenganemo-nos: as baixas

 temperaturas e os ventos húmidos

dificultam tudo.

As leis, além disso, proíbem

a carícia (com isenções

para determinadas zonas epidérmicas

– sem interesse nenhum –

em crianças, cães e outros animais)

e o “não tocar, perigo de ignomínia”

pode ler-se em milhares de olhares.

Então, para onde fugir?

Por toda a parte olhos vesgos,

córneas torturadas,

pupilas implacáveis,

retinas reticentes,

vigiam, desconfiam , ameaçam.

Resta talvez o recurso de andar só,

de esvaziar a alma de ternura

e enchê-la de tédio e indiferença,

neste tempo hostil, propício ao ódio.



O poema foi publicado na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea editada por Assírio & Alvim em 1985.

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