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É fácil fazer filhos, o dificil é a coragem de os ter. Passaram muitos anos, olho para o meu filho e penso no(a) outro(a), no que não nasceu.

Na fase final da gestação, quando os bebés se impacientam para vir ao mundo, era um momento de pura magia, primeiro ouvir-lhe os impulsos na barriga da mãe , depois, colocada a musica a tocar, ouvir à medida que  a musica avançava, a progressiva acalmia até ao sossego total, sobretudo com o Divertimento K 563 de Mozart tocado pelo Trio Grumiaux.

Lembrado desses irrepetíveis momentos aqui fica essa interpretação. Talvez o encantamento se repita com algum visitante/leitor.

1. Allegro

2. Adagio

3. Menuetto. Allegreto – Trio

4. Andante

5. Menuetto. Allegreto – Trio I-II

6. Allegro

Noticia erudita:

Divertimento em Mi Bemol maior K 563 é um trio para violino, viola e violoncelo. Concluído em Setembro de 1788, é o único Trio para cordas que se encontra na vasta produção de Mozart e para amantes e conhecedores da obra do génio, situa-se entre as suas mais sublimes composições.

Composto a seguir ao verão que viu surgir as três últimas sinfonias (nº 39, K543, nº 40, K550 e nº 41, K551) ressuma aquele misto de gravidade e alegria que torna toda a sua musica preciosa.

Ouço-o de novo enquanto escrevo isto, e a emoção do diálogo entre violino e viola com a companhia em fundo do violoncelo, no segundo andamento que agora toca, volta intacta. É uma conversa com a alma de onde saímos lavados.

Mas melhor que eu, e com mais autoridade, fala Alfred Einstein na sua preciosa biografia de Mozart:

O Trio em Mi bemol maior de Mozart é uma obra de musica de câmara autêntica e preenche o auditor pela técnica, pela inventiva e pelo bom humor… os três movimentos principais, o primeiro, allegro, um adágio e o rondo final, respondem na perfeição ao espírito da musica de câmara. Mozar escreveu poucos desenvolvimentos com uma gravidade tão inquietante como a do primeiro movimento; poucos adagios atravessados por tão largo sopro, poucos finais repletos de tanta graça e intimidade, e os movimentos graciosos, os minuetes e o andante com variações, possuem uma força e uma profundidade que não pertencem senão a uma obra destinada a conhecedores. Só um conhecedor pode apreciar igualmente a arte consumada do diálogo nesta obra aparentemente tão modesta; cada instrumento é um primus inter pares; cada nota fala, cada nota contribui para uma perfeição sonora que encanta o espírito tanto como os sentidos. … o mais perfeito, o mais delicado que jamais foi possivel ouvir aqui em baixo.

O Divertimento em Mi Bemol maior K 563 não é uma obra muito gravada. Conheço apenas mais duas gravações.

Uma pelo Trio L’Archibudelli em instrumentos da época, na qual parece existir um invólucro que impede a saída da emoção.

A outra é obra de três virtuose, também habituados à musica de câmara: Gidon Kremer no violoino, Kim Kashkadian na viola e Yo-Yo Ma no violoncelo. O brilho das respectivas prestações individuais acaba por esconder esta conversa intima entre os instrumentistas e o auditor que o trio Grumiaux consegue de forma ímpar.

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