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Suponho que as morenas hoje dispensam o encorajamento dos poetas do dia.


Não foi sempre assim.

Num tempo em que os padrões de beleza eram os a seguir figurados,

 

qualquer morena, por mais bela que fosse, acabava por se sentir na pele deste modelo.

 

Poetas condoidos, ou apreciando a beleza sem preconceito, louvaram a pele trigueira de morenas belas.

Desde logo Camões, na que há muito é considerada entre as melhores poesias portuguesas de sempre, canta em Endexas a uma cativa chamada Bárbara, os encantos, cuja Pretidão de amor[*], / Tão doce a figura, / que a neve lhe jura / que trocara a cor.

[*] Este verso tem feito correr rios de tinta com comentadores ao logo dos séculos indignados e a pretender demonstrar que a pretidão é apenas do cabelo. Outros concedem que Bárbara possa ser, talvez, morena.

Embora de longa data a brancura da pele tenha sido, nas sociedades de matriz católica, distintivo de classe e apanágio de beleza, já no virar do sec. XVII para o XVIII encontramos um poema que dá conta de uma realidade social onde a cor da pele determina o destino. Trata-se de um poema de Soror Maria do Céu (1658 – 1753) que, em A pérola e a pimenta, retrata o destino de duas donzelas, uma branca e uma preta, provavelmente meio-irmãs, filhas do mesmo pai como parece intuir-se do final do poema, em que a branca ficou por dama / a negra por cozinheira.


A PÉROLA E A PIMENTA

Companheira de jornada,

Duas donzelas havia,

Uma formosa e fria,

Outra feia e engraçada.

Uma tão negra se of’rece,

Que até carapinha tem,

A outra tão clara vem

Que filha da alva parce.

E olhando com desafogo

Nos efeitos que produz,

Uma tem cara de luz,

A outra entranhas de fogos.

Já acabada a carreira,

Ali onde a sorte as chama,

A branca ficou por dama,

A negra por cozinheira.

Uma e outra foi notada

Nesta jornada ou empresa,

Porque a dama ficou presa,

E a negra escalavrada.

Todos sabemos quem são

E as conhecemos bem,

Ainda que uma só tem

Árvore de geração.

E da outra não duvido

Venhais em conhecimento,

Porque é o seu nascimento

Claro, posto que escondido.

 

 

Avançando no tempo, é na segunda metade do século XIX que escolho dois poemas com a particularidade de terem sido seleccionados, por antologiadores de mérito, como representativos da poesia dos seus autores e se situarem entre os melhores da poesia portuguesa de sempre.

No primeiro, TRIGUEIRA,  Júlio Diniz (1839 – 1877) desdobra-se em argumentos de consolo:  Mais feia / Com essa cor te imaginas? / … / Pois serias tu mais linda, / Se tivesses outra cor?

ou ainda:

Tu, que assim fascinas / Com um só olhar dos teus!

Invejar a cor da rosa, / Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Onde mais realça / O brilhar duns olhos pretos, / … / Do que numa cor assim?

 

Vamos então ao poema:

 

TRIGUEIRA

Trigueira! Que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! Tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciumes tens da alvura

D’esses semblantes de neve!

Ai, pobre cabeça leva!

Que te não castigue Deus.


Trigueira! Se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

D’essa ardilosa maneira

Por que tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.


Triguieira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto,

Daí provem todo o encanto

Em que me traz este amor.

E suspiras e murmuras!

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?


Trigueira! Onde mais realça

O brilhar duns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr duma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?


Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa,

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.


Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores, trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

 

Este poema, cuja popularidade, hoje, desconheço, figurou entre as 100 Melhores Poesias (Líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaelis de Vasconcellos em 1910. À poesia de Júlio Diniz hoje desaparecida das livrarias (suponho), regressarei por estes dias.

Entre estas 100 poesias figura, obviamente, Endexas a uma cativa chamada Bárbara de Camões.

 

O segundo poema sobre a cor da pele, MORENA, é de Guerra Junqueiro (1850 – 1923).

Aqui o tom é outro, brincalhão, e a morena a quem se dirige o poema é ainda alvo de atenções prévias do poeta

… / Pois pouco te importa / Que eu goste ou que não.

e não o consolo que Júlio Diniz escreveu.

Ao longo do poema desenvolvem-se comparações com flores … / Há rosas dobradas / E há-as singelas; / … / Mas rosas morenas, / Só tu, linda flor.

 

E de elogio em elogio termina no mais convincente(?):

E a Virgem Maria / Não sei… mas seria / Morena também.

Vê lá depois disto / Se ainda tens pena / Que as mais raparigas / Te chamem morena!

 

Finalmente o poema:

 

MORENA

Não negues, confessa

Que tens certa pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena.


Pois eu não gostava,

Parece-me a mim,

De ver o teu rosto

Da cor do jasmim.


Eu não… mas enfim

É fraca a razão,

Pois pouco te importa

Que eu goste ou que não.


Mas olha as violetas

Que, sendo umas pretas,

O cheiro que têm!

Vê lá que seria,

Se Deus as fizesse

Morenas também!


Tu és a mais rara

De todas as rosas;

E as coisas mais raras

São mais preciosas.


Há rosas dobradas

E há-as singelas;

Mas são todas elas

Azuis, amarelas,


De cor de açucenas,

De muita outra cor;

Mas rosas morenas,

Só tu, linda flor.


E olha que foram

Morenas e bem

As moças mais lindas

De Jerusalém.

E a Virgem Maria

Não sei… mas seria

Morena também.


Moreno era Cristo,

Vê lá depois disto

Se ainda tens pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena!

 

Sendo um poema conhecido na sua época, foi escolhido como representativo do estro de Guerra Junqueiro por Cabral do Nascimento para a antologia COLECTÂNEA DE VERSOS PORTUGUESES  do século XII ao século XX, publicada em 1964, onde figurava apenas um poema por poeta.

Nesta antologia permaneceu a representar a obra camoneana  Endexas a uma cativa chamada Bárbara, mas desapareceu qualquer poema de Júlio Diniz.

Nas voltas da moda ou da sensibilidade de cada época se fazem génios hoje, esquecidos amanhã.

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