Este frio siberiano que nos visita no corpo e na alma, fez-me ir buscar um poema de Óssip Mandelstam (1891 – 1938).


Um friozinho faz cócegas na nuca,

é impossivel ver de imediato:

também a mim me corta o tempo como

a ti se desgasta e camba o salto.


A si mesma se vence a vida, o som

derrete pouco a pouco, falta sempre

qualquer coisa, até falta o tempo

para ter qualquer coisa que se lembre.


Dantes era melhor, é bem verdade;

esse velho sussurrar de outrora

em nada se pode comparar,

ó sangue, ao teu sussurrar de agora.


Pelos vistos não é gratuito

este leve mexer dos lábios,

e abanam, mexem-se os ramos

que condenaram a ser cortados.

1922


A tragédia pessoal do poeta, intuida nos documentos conhecidos, nunca conheceremos do detalhe do seu horror, mas dos tormentos das prisões siberianas foram entretanto conhecidos diversos testemunhos.

Embora tenha lido no inicio da minha juventude Um dia na vida de Ivan Denisovich de Aleksand Solzhenitsyn, foi a leitura há poucos anos de La musique d’une vie, romance de Andreï Makine sobre um pianista que nunca o será, mercê das peripécias decorrentes da arbitrariedade a que um regime absurdo e despótico submete as pessoas, onde encontrei uma aproximação a este frio de alma surgido na impossibilidade de se ser quem se deseja.

Nos livros de Mandelstam que conheço publicados em Portugal com tradução e apresentação dos nunca demais elogiados Nina Guerra e Filipe Guerra, encontram-se detalhes da biografia do poeta que permitem intuir a sua tragédia.

Perseguido, e finalmente preso por ter compostos 2 poemas, eventualmente mais, onde de forma ténue, como se poderá ler num dos poemas “criminosos(?)” que a seguir transcrevo, critica o ditador Estaline – montanheiro do Kremlin – , morreu em transito para a Sibéria, num campo de prisioneiros em Vladivostok.

Eis um dos poemas-crime:


Vivemos sem sentir o país sob os pés,

Nem a dez passos ouvimos o que se diz,

E quando chegamos enfim á meia fala

O montanheiro do Kremlin lá vem à baila.

Dedos gordurosos como vérmina gorda,

As palavras certas como pesos de arroba.

Riem-se-lhe os bigodes de barata,

Reluzem-lhe os canos da bota alta.


À volta a escumalha – guias de fino pescoço –

Nas vénias da semigente ele brinca com gozo.

Um assobia, o outro geme, aquele mia,

Só ele trata por tu, escolhe companhia.

Como ferraduras, lei ‘trás de lei ele oferta,

Em cheio na virilha, olho e sobrolho e testa.

Cada morte que faz – crime malino

E o peitaço tem amplo, ossetino.

Novembro de 1933


São conhecidos poemas do autor desde jovem e felizmente a vida não foi na totalidade a tragédia vivida final. Moço de 18 anos, sente o corpo e interroga-se sobre finalidade e destino,  naquela tão característica profundidade de pensamento que surge a cada passo nos escritores russo:


O corpo me é dado – e com que fim,

Meu corpo único, tão de mim?


Pela alegria chã de respirar,

Silenciosa, a quem devo louvar?


Sou jardineiro e sou flor – cativo

Na prisão do mundo sozinho não vivo.


E já nos vidros da eternidade

Cai meu calor, meu sopro respirado.


Nela se grava um desenho pra sempre,

Irreconhecivel de tão recente.


Escorra do momento a água turva –

O desenho amado não esbate à chuva.

1909

Noticia Bibliográfica:

Os poemas foram retirados de FOGO ERRANTE Antologia poética de Óssip Mandelstam, publicado por Relógio d’ Água em 2001 e de GUARDA MINHA FALA PARA SEMPRE publicado por Assírio & Alvim em 1996 com tradução dos mesmos.

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