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Os poetas daquele século XVI cuja poesia tanto me emociona, foram sobretudo homens temperados nas lutas do seu tempo, em quem a memória e a experiência de ver matar e morrer, e cujo

…  destino, / Atormentado de perpétua guerra, / Me leva por mil mares peregrino.

fez conhecedores dos desconcertos do mundo e da precaridade da vida, permitindo-lhes discernir e dar valor a  Ua rara beleza, ua figura / Que me faz ver na terra o paraiso. ou seja, o que é essencial na vida e faça valer a pena vivê-la:

Hoje venho com um poeta cuja poesia dormia no pó de bibliotecas até há quase vinte anos. De então para cá pouco mais leitores terá encontrado.

Falo de Duarte Dias, poeta português do século XVI nascido no Porto, cuja obra VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana foi publicada pela 1ªvez em Madrid, por Luis Sanches, em 1592.

Dá conta António Cirurgião, na moderna edição critica que fez da obra, editada em 1991, da existência de apenas 2 exemplares de VÁRIAS OBRAS DE DUARTE DIAZ EM lingoa Portuguesa e Castelhana: um na Biblioteca Nacional de Madrid e outro na Hispanic Society of America.

É provavelmente relevante referir que à data da 1ª edição do livro, 1592, estavam ainda por publicar as obras de Sá de Miranda (1595), de António Ferreira (1598), de Diogo Bernardes (1596,1597,1616) e as Rimas de Camões (1595,1598,1616) para referir apenas obras ainda publicadas no século XVI.

A raridade da obra e o anátema que ainda hoje paira sobre a obra dos poetas que se encontraram ao serviço dos Filipes (veja-se D. Francisco Manuel de Melo cujas OBRAS MÉTRICAS apenas connheceram 2ªedição em 2006 e são um caso sério para se obter) talvez explique o silêncio de histórias de literatura sobre o poeta.

 

Escolhi para aqui deixar, 6 sonetos entre os 60 que o livro contém, num total de 115 poesias.

Tentado a destacar um ou outro verso de cada soneto, desisti. A coerência dos poemas seria perdida.

A excelente edição crítica que segui comenta de forma inteligente e erudita todos os poemas. Convido o leitor interessado a lê-la.

 

Agora os sonetos:

Logrando estou, senhora, um brando riso

Daquela doce boca e vista pura

Ua rara beleza, ua figura

Que me faz ver na terra o paraiso.


Logrando estou o delicado aviso,

A luz que torna dia a noite escura

O claro sol, a nova fermosura

Que abrasa o pensamento e perde o siso.


Logrando estou a graça peregrina,

A trança dos cabelos de ouro fino

Que em diferentes laços me arremata:


E quem logra tisouro tão divino

Claramente delira e desatina,

Se dele [se] apartar por ouro ou prata.

p.122

 


Em tanto que o cabelo de ouro fino

Rodea alegremente a linda testa;

Em tanto que descobre e manifesta

Rosas e neve o rosto cristalino;


Em tanto que respira um ar benino

O brando parecer em grata festa;

Em quanto nessa luz alegre assesta

Cem mil setas o inclito menino;


Colhei, senhora minha, o doce fruto,

Antes que tolde e cubra o tempo avaro

De aborrecida neve o fresco cume:


Ah! não tardeis: olhai que corre muto,

Olhai que tudo leva, olhai que em claro

Tudo nos arrebata e nos consome.

p.139

 


Não são estes os rios, doce amigo,

Que com as minhas lágrimas creciam?

Não são estes os vales que sabiam

Quanto de amor eu suspirei comigo?


Não são estes os montes que consigo

O meu triste segredo recolhiam?

Não são estes os árvores [*] que ouviam

Os queixumes que só a Tirse digo?


Oh ricos preços, oh fermosa terra,

Que negra sorte, que contrário sino,

Dos teus amados termos me desterra?


Em fim parto de ti, que o meu destino,

Atormentado de perpétua guerra,

Me leva por mil mares peregrino.

 

[*] – árvore era substantivo masculino.

p.99

 


Doce esperança, pretensão perdida,

Cego desejo, errado pensamento,

Sospiros que contino leva o vento,

Dai-me já paz na minha triste vida.


E se não pode em pena tão crecida

Valer, ou socorrer esquecimento,

Tome correndo o ultimo tormento

Os despojos de ua alma entrestecida.


Recreça a dura e tenebrosa sorte,

Que a mais estranha dor me será leve

A respeito do mal que tanto sinto.


Lágrimas, confusão, estrago ou morte,

Todo se me figura, tudo pinto,

Que passará como desgosto breve.

p.102

 


Parte-se o gosto meu, parte-se a vida

De quem jamais o pensamento parte,

Mas não creais de mim que seja parte

De me apartar de vós esta partida.


Parte-se o coração, mas esculpida

Vossa figura vai na melhor parte,

E parte-se a minha alma, mas não parte,

Que nesses olhos fica recolhida.


Oh quanto melhor fora se passara

Em sospiros e lágrimas ardentes

E na vossa presença descansara,


Que provar o furor dos acidentes

Que minha dura sorte me prepara,

E já do meu receo estão presentes!

p.80

 

Nota erudita:

De notar o emprego da mesma palavra em diferentes formas gramaticais (poliptoto) e o uso de diferentes palavras formadas a partir do mesmo radical (cognatos de partir) num processo poético tão caro a alguma vanguarda na poesia portuguesa dos anos 60 do sec. XX.

 


Calava o mar, calava o fero vento,

Calava o alto Céu, calava a terra,

Calava a mansa noite, que desterra

A pena do cansado pensamento;


Calava o passarinho sonolento,

E, chea de animais, calava a serra.

Calava o vale, sem lhe fazer guerra

Do ar o buliçoso movimento.


Calava o manso rio, convertido

Em doce esquecimento, e, se corria,

Apenas de si mesmo era sentido.


Tudo um brando silêncio adormecia:

Só o triste Tireno, perseguido

Em varios pensamentos, se afligia.

p.121

 


E com este brando silêncio me despeço, deixando o poeta lá onde repousa, provavelmente já não afligido, nos seus próprios pensamentos.


Notícia Bibliográfica:

VÁRIAS OBRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA E CASTELHANA foi uma edição da Fundação Caloute Gulbenkian – Centre Culturel Portuguais/Paris, publicada em 1991, e de que ainda o ano passado, 18 anos após a edição, comprei na própria Fundação 2 exemplares.

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