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Na poesia de Alexandre O’Neill, tantas vezes surpreendente e quase sempre genial, encontramos o retrato mordaz que nos define, frequentemente salpicado de uma ternura conivente.

Os exemplos da sua escrita que me apetecia escolher são imensos. No entanto, fiel ao propósito do blog de seguir caminhos menos frequentados, escolhi um poema que não encontrei recolhido nas obras recentemente publicadas com poemas dispersos do Autor, daí o talvez do título.

O poema, Requeixa de Taveirós, inclui-se numa obra colectiva e comemorativa, dedicada à canção medieval Garvaia.

Como refere o editor da obra, Garvaia é nome de manto real e deu nome a um poema. A esta cantiga de amor ou de escárneo se atribuiram diversas autorias e sobre ela se teceram as mais diversas interpretações. Foi-lhe concedida e retirada a honra de ser considerada a primeira poesia portuguesa e há até quem pense estar ela incompleta.

Actualmente atribuida a Pai Soares de Taveirós, eis a canção:

Cantiga da Garvaia

No mundo nom me sei parelha

mentre me for como me vai,

ca ja moiro por vós e ai!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraia

quando vos eu vi em saia.

Mao dia me levantei

que vos entom nom vi fea!


E, mia senhor, des aquelha

me foi a mi mui mal di’ai!

E vós, filha de dom Paai

Moniz, e bem vos semelha

d’aver eu por vós guarvaia,

pois eu, mia senhor, d’alfaia

nunca de vós ouve nem ei

valia d’ua correa.

É tomando como glosa este poema que O’Neill escreveu Requeixa de Taveirós tornando explicito, o que o poema nos conta e transtorna a humanidade desde sempre ou, como escreve o poeta, entreve e entretem / mortos e vivos, com o propósito de possuir vossa carne / e arrastar-vos, empós, / ao tumulto dos sentidos .

Requeixa de Taveirós

Como eu, mais nenhum outro

foi tão crédulo e tão louco

de me confiar em vós,

senhora branca e vermelha.


Franzis-me essa sobrancelha

com altivez e altavoz.

Nem por isso possuís

razão por vós.


Nem de razão é o assunto,

mas de coração, talvez.

Aqui não entra bestunto,

por esta vez.


Dizeis-me, o que eu já sabia,

que é melhor sofrer poesia,

pensando em vós,

que alimentar veleidade

de possuir vossa carne

e arrastar-vos, empós,

ao tumulto dos sentidos

que entreve e entretem

mortos e vivos.


E quem assim desassisa

a Deus pede que o assista.

Rogai por nós!



Noticia bibliográfica

No âmbito das jornadas de História Medieval realizadas em Junho de 1985, A Altamira e a Quetzal-Funchal promoveram a edição luxuosa em 150 exemplares + 50 exemplares fora do mercado, da Cantiga da Garvaia extraída do Cancioneiro da Ajuda e acompanhada por 2 serigrafias de Vespeira e poemas de Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura.

O poema foi retirado do exemplar 19/150.

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