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Canção Grata

Por tudo o que me deste:

– Inquietação, cuidado,

(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)

Noites de insónia, pela ruas, como um louco…

– Obrigado, obrigado!


Por aquela tão doce e tão breve ilusão,

(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,

Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita

A minha gratidão!


Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!

– Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado…

Sem ironia, amor: – Obrigado, obrigado

Por tudo o que me deste!

Volto amiúde à poesia de Carlos Queirós (1907-1949). Poeta de um requintado lirismo, no quase não-dito dos seus versos encontro o desafio de me pensar, como por exemplo neste espantoso Quase Tudo: “Que pouco-imenso falta à minha vida / para poder sentir que sou poeta!” e conclui “Uma fatal anímica explosão!”.

O poema que aqui deixo, Canção Grata, tornado famoso, em tempos, na voz de uma fadista, faz parte daquele grupo que me acompanha como expressão superior da paixão desfeita.

Mas não resisto a deixar um outro poema, este agora um hino à vida:


Ode Pagã


Viver! – O corpo nu, a saltar, a correr,

Numa prais deserta… Ou rolando, na areia,

Rolando, até ao mar… Que importa o que a alma anseia?

– Isto sim, é viver!


O paraiso é nosso e está na terra. Nós,

É que temos o olhar velado de incerteza;

E julgamos ouvir a voz da natureza,

Ouvindo a nossa voz.


Ilusões! A cultura, o amor, a poesia…

Não igualam, sequer, um dia à beira-mar,

Vivido plenamente, – a sorver, a beijar

O vento e a maresia!


Viver, é estar assim: a fronte ao céu erguida,

Os membros livres, as narinas dilatadas;

Com toda a natureza, em espírito, as mãos dadas…

– O resto, não é Vida!


Que venha pois, a brisa, e me trespasse a pele,

Para melhor poder compreendê-la e amá-la!

Que a voz do mar me chame e, ouvindo a sua fala,

Eu vá e seja dele!


Que o sol penetre bem na minha carne e a deixe

Queimada, para sempre; as ondas, uma a uma,

Rebentem no meu corpo! E eu fique, ébrio de espuma,

Contente como um peixe!


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