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Entre o palpitar da carne encerrado no pudor da linguagem e um panteísmo lido na paisagem algarvia que o viu nascer, circula a poesia de Cândido Guerreiro.

É uma poesia agarrada à terra e aos seus prazeres com a magia da luz mediterrânica em fundo e onde um diálogo com a religião penetra, numa harmonia de homem / deus do universo.

Aqui fica uma pequena amostra da sua poesia com cinco dos seus sonetos.

I

Cheios de paz e cheios de doçura,

Dão-me os teus olhos tanta claridade

Que a minha tormentosa noite escura

Se rasga em Vias-lácteas de bondade!


E vou na trajectória da ventura,

E sigo a linha recta da verdade,

Por ti guiado, oh frágil criatura,

Tão forte em tua simples humildade!


Que o amor vos traga aonde o amor me trouxe,

Cegos que enveredastes pelo mal,

Pois nesta estrada chã, direita e doce,


A morte ajoelhará quando vier,

Ante a Vida, que a Vida é imortal,

Reflorindo num seio de mulher!


II


Porque nasci ao pé de quatro montes,

Por onde as águas passam a cantar

As canções dos moinhos e das pontes

Ensinarem-me as águas a falar…


Eu sei a vossa língua, água das fontes…

Podeis falar comigo, águas do mar…

E ouço à tarde, os longínquos horizontes,

Chorar uma saudade singular…


E porque entendo bem aquelas mágoas,

E compreendo os íntimos segredos

Da voz do mar ou do rochedo mudo,


Sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,

Sinto-me irmão dos íngremes penedos,

Sinto que sou Deus, pois Deus é tudo…


III


BOCA

Irrompe feito Verbo, o pensamento

Pela boca, e na graça de um sorriso

Descobre o nosso olhar um paraíso

Num fulgurante e rápido momento.


Da boca sai o cântico e o lamento;

As lindas rosas da manhã diviso

Na tua boca, e em beijos corporizo

O meu desejo rútilo e sangrento…


Folha revolta, arrebatada palma

Do vento impetuoso da paixão,

A teus pés, caindo-te a minha alma,


Arde em mim, Bem-Amada, a ânsia louca

(Para sentir melhor teu coração)

De colar ao teu seio a minha boca…



IV  –  SULAMITES


A tua alta estatura é comparada

Com a palmeira em lânguido meneio,

E são dois cachos de uvas o teu seio,

Suspensos da palmeira, oh Bem-Amada…


Subirei à palmeira delicada

E colherei seus frutos sem receio…

E a tua boca é como um pomo cheio

Duma essência a mais doce e perfumada…


Tua garganta, inebriante vinho,

Hei-de a saborear devagarinho,

Que tu és para mim e eu para ti…


Erga-mo-nos e vem, de manhãzinha,

A ver se há já romãs, se há flor na vinha,

E vem dar-me os teus peitos mesmo ali…


V


Minha terra embalada pelas ondas,

Lindo país de moiras encantadas,

Onde o amor tece lendas e onde as fadas

Em castelos de lua dançam rondas…


Oh meu Algarve, quero que me escondas…

Que na treva da morte haja alvoradas!

Hei de sonhar com moiras encantadas,

Se eu dormir embalado pelas ondas…


Quando o sol emergir de trás da serra,

Sempre será o sol da minha terra

A fecundar-me o chão da sepultura…


Ao pé dos meus, na minha aldeia querida,

A morte será quase uma ventura,

A morte será quase como a vida…

Noticia bibliográfica:

A obra poética de Cândido Guerreiro reparte-se por alguns livros de interesse desigual para o leitor de hoje.

Concordo com João Gaspar Simões quando diz que Cândido Guerreiro é sonetista por excelência, bem como com a forma como classifica os seus sonetos em três géneros, a saber: filosófico, pictural e erótico, e ainda quando constata que a sua produção de sonetos a partir de 1908 é dominada pela temática pictural e erótica (Perspectiva Histórica da Poesia Portuguesa, 1976, pag. 98-100).

Os sonetos aqui transcritos, em ortografia actualizada, foram retirados da 2ªedição de SONETOS publicada em 1916, em edição da Renascença Portuguesa do Porto.

Esta 2ªedição vem substancialmente ampliada em relação à 1ªedição de 1904, pois dos seus 122 sonetos apenas 50 pertenceram à 1ªedição.


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