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Homem, mulher, e mão, são a substância para a inspiração poética de José Régio (1901-1969) na escolha poética de hoje.

Temos para inicio da história, a aventura da mão “Sábia talvez inconsciente que se passeia “Ali onde o desejo mais me dói”, “doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão levando-o até “àquele auge em que todo, em alma e corpo vou morrer…”.


Monólogo a dois

Sábia talvez inconsciente,

Doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…


Isto que a mão faz pelo prazer masculino tem a contrapartida no prazer feminino. E é acariciar com um dedo médio e um polegar, sabiamente manipulados, aquelas regiões onde o potencial erótico se esconde, para fazer uma mulher percorrer todo o alfabeto do prazer e não apenas de C a G, levando-nos com ela, à decifração daquele mistério feminino que cada mulher guarda em si para oferecer apenas a quem o souber merecer.

O conhecimento deste mistério  o poeta não desdenha quando nos conta: “crispou-se a minha mão sobre o teu sexo / …e a minha mão sondava/ … o teu mistério de mulher.”.

 

Poema

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo,

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E Triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 


De comum aos dois poemas temos os olhos fechados não em sentido figurado de alheamento ou não querer ver, nem numa qualquer deslocada reacção de pudor, mas no sentido físico de potenciação do prazer.

No primeiro poema, para na asa do sonho melhor ir subindo, e assim gozar o prazer até à última gota, enquanto no segundo poema se lhe fecham os olhos no gesto involuntária ditado pela volupia da mão sobre o teu sexo. Em ambos temos a verdade da vida dita na forma superior da poesia.


Publicados estes poemas ao virar os 60 anos, tempo bastante para fruir da vida os seus segredos e deles nos dar conta na sintese adequada à poesia, pertencem ambos ao ciclo “O Amor e a Morte” incluído no livro FILHO DO HOMEM publicado em 1961.


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