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No deambular desenfadado com que vou lendo poesia, encontrei este ORLANDO INNAMORATO, pérola de ironia saída da inspiração de IGNÁCIO DE ABREU E LIMA, pseudónimo de ANTÓNIO FEIJÓ, onde o poeta dá conta dos seus diversos amores e vicissitudes peculiares.


ORLANDO INNAMORATO

O meu primeiro amor

Chamava-se Maria

Leonor;

O segundo, Sophia

Eulália Pimentel;

O terceiro, que lembro com fervor,

Chamava-se Rachel…

Era um anjo exilado, uma pomba sem fel!

De todas foi a mais amada …

Quando a perdi (levou-a a Morte), oh dor immensa!

Ficou-me a alma encarcerada

Dentro da praça d’Olivença,

Onde Ella tinha o berço e a virginal morada!

Das outras, a primeira, a Maria Leonor

(esta lembrança é um horror!)

Trahiu-me com um primo, um primo d’ella e meu,

Estoira-vergas desvairado,

Só por tocar guitarra e por cantar o fado

Melhor do que eu.

A segunda, Sophia Eulália Pimentel,

Donzella gothica e feudal,

Foi apenas a visão, sonho de Menestrel

Em velha Côrte medieval…

Muitas outras depois, muitas outras mulheres,

Doido romantico, adorei;

Ah! quantas ilusões e quantos malmequeres

Por todas ellas desfolhei!

Mas nenhuma deixou recordação tão doce

Como a linda Rachel…

Ah! se ella viva fôsse,

Quanta impura triaga, quanto fel

Eu teria evitado

Como homem casado!

Mas … lá diz o ditado:

Casamento e mortalha

No céu se talha,

Embora ás vezes o casamento

Seja um tormento,

Que mais parece fogo do Inferno

Que bico de obra das mãos do Eterno…

Foi por essa razão

Que simultaneamente e sucessivamente,

Com o meu coração

Atormentado e doente,

Me consagrei a amar

As mais diversas criaturas,

Mas já sem intenção de me casar:

Alem do mais, por serem duras

As minhas circunstâncias actuaes,

E bicudos os tempos para taes

Cavallarias.

Jamais, depois, tomei mulher senão a dias!

É um deleite a variedade…

Para o provar, meu tio abbade,

Com eloquencia e grande erudição, citava

A resposta que Luis XIV sempre dava

Ao confessor,

Quando este lhe exprobava inconstancias d’amor:

Nem sempre gallinha,

Nem sempre rainha…

Imagina, por isso,

Oh Thomásia! Oh sereia!

Já não digo a paixão, mas o immenso derriço,

Que a ti me prende e enleia,

Vendo que já lá vão três semanas e meia

Desde que estás ao meu serviço!

Conservei a ortografia da 1ª edição do poema.


O poema foi publicado em 1926 no livro NOVAS BAILATAS, livro póstumo tal com SOL DE INVERNO publicado em 1922 e por muitos considerado como a sua obra-prima.

Os poemas reunidos em Bailatas e Novas Bailatas apresentam-se num registo “misto singular de ironia e de sensibilidade, de graça bufa e de melancolia , às vezes, parecem haver sido escritas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico”, como os caracteriza Luis de Magalhães na notável noticia biobibliográfica com que apresenta  SOL DE INVERNO.

É neste SOL DE INVERNO que Alberto d’Oliveira, dedicatário de ORLANDO INNAMORATO, num texto a que chamou “António Feijó, o que morreu de amor, faz através da correspondência trocada por ambos, uma comovida evocação dos últimos meses da vida do poeta após a morte da esposa.

À época, António Feijó era embaixador de Portugal na Escandinávia e os excertos da correspondência publicados deixam entrever o peso de se ter nascido meridional e poeta: “Do estio setentrional ficou-me apenas a inenarrável melancolia. Não imagina como pesa ao meu espírito esta paisagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pálida, misto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz.”

É um poeta e escritor brilhante quem assim escreve.

Lida como um todo, a poesia de António Feijó revela, na sua perfeição formal, um exercício de inteligência como poucas vezes encontramos na poesia portuguesa.

E aqui fica a belíssima alegoria à morte do amor com o passar do tempo publicado em  SOL DE INVERNO:


O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!»

 



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