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A exclamação do verso  Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! não é apenas retórica mas antes um grito de desejo, pois o poema começa assim:

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! /  um’hora só que seja, mas vivida / e satisfeita…

 

E para enfatizar a intensidade do desejo o poeta remata:

 

… e pode-se morrer, / – porque se morre abençoando a vida!

 

É pois um poema do desejo insatisfeito, dum tempo em que os prazeres do sexo eram, talvez, apenas sonhados como o poema refere,  e quantos como eu nunca a tiveram /  uma hora de amor como a sonharam!

quando decorriam da paixão por menina casadoira.

O poema  A TRISTEZA DE VIVER, é de Manuel Laranjeira (1877-1912) e foi dedicado à Exma. Snrª D. Dalila dos Reis Ferreira.

 

 

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!

um’hora só que seja, mas vivida

e satisfeita… e pode-se morrer,

– porque se morre abençoando a vida!


Mas ess’hora suprema em que se vive

quanto possa sonhar-se de ventura,

oh vida mentirosa, oh vida impura,

esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!


E quantos como eu a desejaram!

e quantos como eu nunca a tiveram

uma hora de amor como a sonharam!


Em quantos olhos tristes tenho eu lido

o desespero dos que não viveram

esse sonho de amor incompreendido!

 

 

 

Noticia Bibliográfica

Personagem singular na sociedade portuguesa do dealbar do séc. XX, dele escreveu Unamuno “ Fué Laranjeira quien me enseñó a ver el alma trágica de Portugal”.

O seu Diário Íntimo, publicado postumamente em 1957, lendo-se como um romance, faz desfilar os íntimos, Miguel de Unamuno, companheiro de intermináveis colóquios, e o autor, “... devorado pelo pessimismo e o tédio, um certo freudismo avant la lettre amarfanha e exaspera a dolorosa galeria das mulheres que arrastam o seu destino nas desoladas páginas do Diário. A par disto, a revolta constante dum carácter insubmisso a todas as sujeições. Sente-se até ao lê-lo, em certas páginas de um realismo doentio e cru, ou quando lhe move a pena o imperativo idealista da consciência, uma antecipação e um antegosto, ora a Joyce, ora a Sartre, ora a Camus, ou aos três conjuntamente.”, para usar a penetrante descrição de Jaime Cortesão.

A poesia de Manuel Laranjeira encontra-se reunida no livro COMIGO publicado pela primeira vez em 1912.

 

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